A inovação, a competitividade e o rendimento dos agricultores estiveram no centro do Dia de Campo InovMilho’26, realizado esta quarta-feira, 2 de setembro, na Estação Experimental António Teixeira, em Coruche, onde responsáveis do setor agrícola, investigadores, empresas e decisores políticos discutiram os principais desafios colocados à produção nacional de milho e ao futuro da agricultura portuguesa.

Num encontro em que a tecnologia esteve lado a lado com as preocupações económicas das explorações agrícolas, o debate passou pela agricultura de precisão, inteligência artificial, utilização de imagens de satélite, sustentabilidade dos solos, gestão da água, custos de produção e impactos provocados pelas populações de javalis. O programa incluiu ainda uma visita aos campos de ensaio e a assinatura de um protocolo entre o B-Rural, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, destinado a aproximar o ensino superior do setor agrícola e florestal.

A sessão de encerramento reuniu Jorge Durão Neves, presidente da Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo, Álvaro Mendonça e Moura, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal, Maurício Marques, presidente da Comissão de Agricultura e Pescas da Assembleia da República, Nuno José Azevedo, presidente da Câmara Municipal de Coruche, e José Manuel Fernandes, ministro da Agricultura e Mar.

“O futuro da agricultura não se faz apenas no campo”

Jorge Durão Neves colocou a inovação e a atração de novas gerações entre as prioridades para garantir o futuro do setor, defendendo uma ligação cada vez mais estreita entre agricultores, investigação científica, instituições de ensino e empresas.

“O futuro da agricultura não se faz apenas no campo. Faz-se também nas universidades, nos politécnicos, nos laboratórios, nas empresas e, sobretudo, na capacidade de atrair novas gerações”, afirmou o presidente da ANPROMIS.

O dirigente salientou que a agricultura terá de ser capaz de conciliar produção e sustentabilidade, garantindo simultaneamente rendimento a quem trabalha no setor. Nesse sentido, considerou fundamental que os projetos de investigação tenham aplicação prática.

Para Jorge Durão Neves, a inovação “não pode terminar num relatório”, devendo chegar às explorações através de soluções que possam efetivamente ser utilizadas pelos agricultores. O responsável anunciou ainda a aprovação de uma candidatura apresentada pela ANPROMIS, em parceria com outras entidades da fileira dos cereais, destinada ao desenvolvimento de novas soluções que colocam o solo no centro da estratégia produtiva.

Mas o presidente da associação deixou também reivindicações ao Governo. Entre elas está o reforço dos pagamentos ligados ao milho, passando, segundo os valores referidos no encontro, dos atuais 343 euros para 474 euros por hectare no milho para grão e de 206 para 252 euros no milho para silagem.

Jorge Durão Neves alertou igualmente para a subida dos custos de produção. Segundo afirmou, apenas considerando fertilizantes e combustível, o agravamento terá rondado os 300 euros por hectare.

O dirigente criticou ainda a diferença entre os apoios extraordinários atribuídos aos produtores portugueses e espanhóis. “Em Espanha estamos a falar de 92,5 euros por hectare. Em Portugal serão 61 euros por hectare”, afirmou, defendendo igualmente que o limite máximo de apoio por exploração possa subir dos cinco mil para 27.750 euros.

CAP alerta para perda de competitividade

Álvaro Mendonça e Moura centrou grande parte da intervenção na competitividade da agricultura portuguesa e na necessidade de garantir condições semelhantes às existentes noutros Estados-membros da União Europeia.

“Só conseguiremos continuar a ser produtivos na produção de cereais se estivermos na vanguarda do conhecimento. Só assim conseguiremos ser competitivos”, afirmou o presidente da CAP, defendendo que a agricultura nacional terá de apostar continuamente na investigação aplicada e na incorporação de tecnologia.

Mendonça e Moura chamou também a atenção para a evolução da balança comercial dos produtos agrícolas e para o peso que a subida dos combustíveis e dos fertilizantes está a ter nas contas das explorações.

O responsável comparou a resposta portuguesa com os apoios adotados em Espanha, considerando que diferenças significativas entre países da União Europeia podem colocar os produtores portugueses numa posição de desvantagem.

“Se efetivamente queremos um país, temos que garantir que há condições de competitividade justas no espaço europeu”, sublinhou.

A futura Política Agrícola Comum esteve igualmente em destaque. O presidente da CAP advertiu que Portugal terá de assumir uma posição firme nas negociações europeias para evitar uma redução dos recursos destinados à agricultura.

“É preciso subir o tom”, defendeu, considerando que as decisões que estão a ser tomadas nesta fase poderão condicionar o setor durante vários anos.

A renovação geracional foi outra das preocupações deixadas pelo dirigente agrícola. “Se o rendimento do agricultor não aumentar, não haverá renovação geracional”, afirmou.

Ciência e produção “têm de caminhar de mãos dadas”

Maurício Marques destacou a importância do trabalho desenvolvido no InovMilho e considerou que encontros desta natureza permitem aproximar os centros de decisão dos problemas sentidos diariamente nas explorações.

“É fundamental que a ciência e a produção caminhem de mãos dadas”, afirmou o presidente da Comissão de Agricultura e Pescas.

O deputado sublinhou que os cereais portugueses enfrentam dificuldades de competitividade, mas salientou fatores como a sustentabilidade, a qualidade, a rastreabilidade e a capacidade de inovação dos produtores nacionais.

Maurício Marques considerou ainda essencial aproximar legislação e realidade agrícola, defendendo que cabe também aos decisores políticos criar regras que possam ser aplicadas no terreno.

“Temos de continuar a atrair jovens para a nossa agricultura. Jovens de talento, novos pensadores, para que possamos caminhar juntos”, afirmou.

Segundo o responsável, a produção nacional de milho cobre apenas uma parte das necessidades do país, reforçando a necessidade de aumentar a capacidade produtiva e diminuir a dependência externa.

Coruche quer continuar no centro da inovação agrícola

O presidente da Câmara Municipal de Coruche, Nuno Azevedo, destacou a importância de o concelho voltar a receber um encontro dedicado à inovação agrícola, numa região onde o milho, o regadio e a agricultura têm um peso relevante na economia.

Para o autarca, o futuro do setor passa pela combinação entre conhecimento, experiência e inovação.

“A inovação deixou de ser uma opção e é já uma necessidade”, afirmou.

Nuno Azevedo destacou os desafios provocados pelas alterações climáticas, pela disponibilidade de água, pelos custos de produção e pela necessidade de tornar as explorações mais eficientes.

“Juntar a experiência de quem trabalha a terra há décadas com o conhecimento produzido pelas universidades, pelos centros de investigação e pelas empresas é o caminho a seguir”, sustentou.

O presidente da Câmara garantiu ainda que o Município de Coruche continuará a assumir-se como parceiro de projetos ligados ao desenvolvimento e à inovação agrícola, considerando a agricultura estratégica para o concelho.

Ministro revela que agricultores de Coruche receberam 19,4 milhões de euros

Na intervenção que encerrou o encontro, José Manuel Fernandes respondeu a algumas das preocupações deixadas anteriormente pelos representantes dos agricultores e apresentou números relativos aos apoios pagos ao setor.

O ministro da Agricultura e Mar destacou particularmente a evolução dos pagamentos aos agricultores do concelho de Coruche.

“Os agricultores de Coruche, cujo Pedido Único de 2023 tinham recebido 6,3 milhões de euros. Os agricultores de Coruche em 2025 receberam 19,4 milhões de euros”, afirmou.

José Manuel Fernandes salientou que o valor representa mais do triplo do montante registado dois anos antes.

“Isto não são anúncios. São montantes pagos”, frisou.

O governante revelou também números relativos ao distrito de Santarém, indicando que os pagamentos terão passado de 27,4 milhões de euros em 2023 para 70,3 milhões em 2025.

O ministro confirmou igualmente apoios destinados a mitigar os efeitos da subida dos fertilizantes e da energia. Segundo afirmou, 20 milhões de euros destinados aos fertilizantes já foram pagos e estão previstos mais 20 milhões para apoiar os agricultores perante os custos da energia.

José Manuel Fernandes disse estar ainda a trabalhar para conseguir mais 20 milhões de euros até ao final do ano, o que elevaria para 60 milhões de euros o conjunto destas medidas.

O governante respondeu também às críticas sobre a resposta às tempestades que atingiram o país, afirmando que, somadas diferentes medidas dirigidas ao setor agrícola, entre reposição do potencial produtivo, regadios, linhas de crédito e outros mecanismos, estão aprovados mais de 450 milhões de euros.

“Estamos a fazer o máximo e temos bem consciência de todas as dificuldades e dos desafios dos agricultores”, assegurou.

Governo prepara projeto para reduzir população de javalis

Um dos temas que marcou o Dia de Campo foi também o impacto crescente dos javalis nas culturas agrícolas.

Depois de Álvaro Mendonça e Moura ter considerado insuficientes as medidas atualmente existentes para controlar a espécie, José Manuel Fernandes revelou que o Governo está a trabalhar num projeto piloto destinado à redução das populações de javali em zonas onde existe desequilíbrio.

O modelo, explicou, prevê a utilização da caça e o pagamento de um determinado montante por animal abatido nas áreas abrangidas pela experiência.

“Nós precisamos do equilíbrio”, afirmou o ministro, defendendo uma gestão das populações compatível com a proteção da biodiversidade e com a defesa das produções agrícolas.

Milho como laboratório do futuro da agricultura

Ao longo da manhã, os participantes puderam conhecer diferentes experiências e soluções aplicadas à cultura do milho. O programa abordou temas como o vírus do nanismo, segurança da fileira dos cereais, sustentabilidade do solo, produção de arroz sob pivot, fotogrametria, inteligência artificial e monitorização através de imagens de satélite.

A agricultura de precisão e a convivência entre javalis e culturas agrícolas completaram um programa que procurou mostrar como a tecnologia está a entrar cada vez mais rapidamente nas explorações.

Entre demonstrações tecnológicas e reivindicações ao poder político, o InovMilho’26 deixou em Coruche uma mensagem transversal aos diferentes intervenientes. Produzir mais, com menos recursos, incorporar conhecimento científico e garantir rendimento aos agricultores serão condições determinantes para que a agricultura portuguesa consiga manter competitividade e atrair uma nova geração para o setor.