Portugal poderá ter uma população de javalis próxima dos 400 mil animais, segundo um estudo internacional que produziu o primeiro mapa europeu, em grande escala, com estimativas quantitativas da densidade da espécie.
O trabalho, publicado na European Journal of Wildlife Research, contou com a participação de investigadores portugueses do CESAM e do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, entre os quais João Carvalho, Rita Tinoco Torres, Nuno Pinto, Guilherme Ares Pereira e Carlos Fonseca. Participaram ainda investigadores da Palombar, Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural.
Para Portugal, os dois modelos utilizados pelos investigadores apresentam resultados muito semelhantes. O modelo baseado em registos de ocorrência estima uma densidade média de 4,31 javalis por quilómetro quadrado e uma população de 395.618 animais. Já o modelo sustentado nos dados da atividade cinegética aponta para 4,60 javalis por quilómetro quadrado e 398.820 indivíduos.
Os valores não correspondem a uma contagem direta dos animais atualmente existentes no território nacional. Tratam se de estimativas produzidas através de modelos espaciais e destinadas a representar as populações antes da época de caça e, nos países afetados, antes da deteção da Peste Suína Africana. Os próprios autores alertam que os resultados devem ser interpretados tendo em consideração as condições locais, a qualidade dos dados, a pressão cinegética e a evolução das populações.
O estudo ganha particular interesse para territórios como Almeirim, Alpiarça, Azambuja, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Coruche, Golegã, Mora, Rio Maior, Salvaterra de Magos, Santarém e Vila Franca de Xira, onde coexistem extensas áreas agrícolas, florestais e rurais e onde a gestão das populações de javali assume importância para a agricultura, atividade cinegética e segurança.
Apesar de os mapas terem sido produzidos com uma resolução de dois por dois quilómetros, o artigo não apresenta estimativas individualizadas para estes concelhos. Assim, os valores médios nacionais não devem ser aplicados diretamente a cada município para calcular o número de animais existente em cada território.
A investigação cruzou informação proveniente de observações de javalis e de animais abatidos em ações de caça com variáveis como o clima, cobertura e utilização do solo, topografia e produtividade vegetal. Os modelos foram depois calibrados através de estimativas consideradas robustas obtidas em 77 locais europeus.
Os resultados indicam uma concentração de densidades médias a elevadas na Europa Ocidental e no sul do continente. O modelo baseado na atividade cinegética identifica a Península Ibérica entre as áreas europeias de maior abundância, particularmente em paisagens mediterrânicas onde se combinam floresta e agricultura.
No conjunto da principal área de distribuição da espécie na Europa, os investigadores estimam a existência de entre 13,5 e 19,6 milhões de javalis antes da época de caça.
Para a equipa científica, o trabalho representa um avanço na forma de acompanhar a evolução da espécie. “A necessidade de uma monitorização harmonizada da fauna selvagem em toda a Europa é urgente”, defendem os autores, considerando que estimativas comparáveis de densidade permitem melhorar a avaliação dos riscos associados às doenças e apoiar decisões de gestão.
A Peste Suína Africana é uma das principais preocupações associadas ao crescimento e deslocação das populações de javali. Segundo o estudo, conhecer a densidade dos animais permite estabelecer uma base para avaliar o risco de propagação da doença, planear medidas de controlo e analisar os impactos ecológicos, económicos e sociais provocados pela espécie.
O trabalho resulta também da participação do CESAM na rede europeia ENETWILD e no European Observatory of Wildlife, estruturas que têm procurado desenvolver métodos harmonizados de monitorização da fauna selvagem em diferentes países europeus.
