O Ministério da Agricultura e Mar está a preparar um projeto piloto que prevê o pagamento de um valor por cada javali abatido através da caça em zonas onde seja identificado um excesso de animais, revelou o ministro José Manuel Fernandes, em declarações ao NS, em Coruche.
A medida surge como resposta ao crescimento das populações de javalis e aos problemas provocados pela espécie, nomeadamente prejuízos nas explorações agrícolas e riscos para a segurança rodoviária.
José Manuel Fernandes reconheceu que existe atualmente um desequilíbrio e foi claro quanto à necessidade de reduzir o número de animais.
“Temos javalis a mais”, afirmou o ministro, explicando que existe um estudo da Universidade de Aveiro que identifica as zonas onde a presença da espécie é mais elevada.
É precisamente nessas áreas que o Governo pretende testar uma nova abordagem, recorrendo à atividade cinegética e criando um incentivo financeiro diretamente associado aos animais abatidos.
“Nesses sítios nós temos que fazer a redução do número de javalis através da caça, pagando o montante por animal”, revelou José Manuel Fernandes ao NS.
O ministro não avançou ainda qual será o valor pago por cada javali abatido, nem indicou as zonas concretas onde a experiência será inicialmente aplicada. Esclareceu, contudo, que o modelo está a ser preparado como projeto piloto, permitindo avaliar os seus resultados antes de uma eventual aplicação mais alargada.
“É algo que estamos a trabalhar num projeto piloto para também daí tirarmos ensinamentos para este objetivo do equilíbrio”, explicou.
Ministro admite que há “caçadores a menos”
A falta de caçadores suficientes para controlar as populações de javalis é, para José Manuel Fernandes, uma das razões que justificam a criação deste mecanismo extraordinário.
O governante recuperou uma posição que já tinha manifestado publicamente, segundo a qual Portugal enfrenta simultaneamente um excesso de javalis e uma redução da capacidade para controlar a espécie através da caça.
“Esta medida extraordinária prova que efetivamente há caçadores a menos, porque se existissem caçadores em número suficiente, não precisávamos de avançar para este projeto piloto”, afirmou.
José Manuel Fernandes defendeu igualmente o papel dos caçadores na gestão dos ecossistemas, rejeitando a ideia de que a atividade cinegética seja necessariamente incompatível com a proteção ambiental.
“Quando eu digo que o caçador é um amigo do ambiente, há pessoas que não compreendem esta afirmação por desconhecimento”, disse, acrescentando que “tem que existir equilíbrio e neste momento não há equilíbrio”.
Zonas serão escolhidas com critérios técnicos
Questionado pelo NS sobre onde será implementado o projeto piloto, o ministro explicou que a seleção das áreas será feita com base em critérios técnicos e nos estudos disponíveis sobre a distribuição e concentração das populações de javalis.
A intenção do Ministério passa, assim, por direcionar o incentivo para os territórios onde o excesso de animais representa um problema mais significativo.
A questão assume particular importância em zonas agrícolas como o Vale do Sorraia e a Lezíria do Tejo, onde os javalis podem provocar prejuízos elevados nas culturas e onde a presença de animais nas estradas constitui igualmente um risco para a circulação rodoviária.
O modelo agora anunciado representa uma alteração significativa na estratégia de controlo da espécie, uma vez que o Estado admite passar a atribuir uma compensação financeira associada diretamente a cada animal abatido.
Para já, permanecem por conhecer o valor que será pago por javali, as condições de acesso ao incentivo, o calendário para o arranque do projeto e os territórios que integrarão a primeira fase da experiência. O compromisso deixado pelo ministro é o de avançar com uma solução que permita reduzir as populações onde existe um desequilíbrio, utilizando a caça como instrumento de gestão.
