O Hospital Distrital de Santarém foi palco, esta quarta-feira, 7 de maio, de um simulacro de grande dimensão que colocou à prova a capacidade de resposta da Unidade Local de Saúde da Lezíria (ULS Lezíria), das forças de segurança, bombeiros e proteção civil perante cenários extremos de violência, incêndio e sequestro em ambiente hospitalar.

O exercício, realizado no Serviço de Urgência Geral e no percurso até ao Conselho de Administração, envolveu dezenas de operacionais e simulou duas ocorrências críticas, inspiradas em situações que, embora fictícias, refletem riscos reais enfrentados pelas unidades de saúde.

O primeiro cenário começou com a entrada de dois homens armados nas urgências do hospital. Segundo o enredo definido para o exercício, os indivíduos exigiam atendimento imediato para a mãe, que aguardava há várias horas no serviço de urgência. A situação escalou rapidamente para momentos de tensão, distúrbios e violência.

Já depois da confrontação inicial, os suspeitos provocaram um incêndio na área das urgências, obrigando à intervenção dos Bombeiros Sapadores de Santarém. No decorrer da operação, sequestraram uma enfermeira da triagem e o administrador da Unidade Local de Saúde da Lezíria, conduzindo-os até à zona do Conselho de Administração.

Perante o agravamento da situação, entrou em ação a PSP de Santarém, através da Equipa de Intervenção Rápida e de negociadores que assumiram a gestão do cenário de sequestro e a resolução do incidente.

Ao longo do exercício foram simuladas evacuações, confinamento de utentes, combate ao incêndio, gestão de crise, comunicações de emergência e coordenação entre diferentes entidades de socorro e segurança.

“O objetivo era testar procedimentos”

No final do simulacro realizou-se um debriefing entre todas as entidades envolvidas, durante o qual foi feito um balanço da operação.

Pedro Marques, administrador da ULS Lezíria e do Hospital Distrital de Santarém, explicou que o principal objetivo passou por “testar procedimentos entre diversas forças de segurança e de proteção civil” e avaliar a capacidade interna de resposta da instituição perante situações fora da rotina.

“O objetivo era testar procedimentos entre diversas forças de segurança e de proteção civil e a nossa capacidade também interna, de nos organizarmos numa resposta a situações que escapam àquilo que é a rotina do dia a dia e que podem pôr em causa a segurança dos doentes, dos profissionais e a qualidade dos cuidados”, afirmou.

O responsável classificou o balanço como “positivo”, embora tenha reconhecido a existência de áreas de melhoria, sobretudo ao nível das comunicações e da organização do comando operacional.

“Foram identificadas pequenas ineficiências e incongruências, nomeadamente relacionadas com a forma de comunicação e a existência de uma central e posto de comando”, referiu, acrescentando que a ULS Lezíria está já a reforçar medidas de autoproteção e a investir em equipamentos de comunicação para cenários de falha de energia.

Pedro Marques anunciou ainda futuras ações de formação para profissionais do hospital, incluindo treino em evacuação, utilização de extintores, definição de circuitos de emergência e pontos de encontro.

Questionado sobre a possibilidade de instalação de um posto policial permanente no hospital, admitiu que o tema está em análise pelo Conselho de Administração.

“É uma das possibilidades que temos em cima da mesa. Eu já trabalhei numa instituição onde tínhamos PSP dentro da urgência hospitalar e isso dá outro conforto e outra capacidade de resposta”, afirmou.

Proteção Civil destaca necessidade de melhorar comunicações

Filipe Almeirante, coordenador municipal da Proteção Civil de Santarém, explicou que o exercício foi desenhado para testar a articulação entre bombeiros, PSP e estruturas hospitalares em dois contextos distintos: safety e security.

“O objetivo foi criar dois cenários dentro de uma unidade de saúde onde conseguíssemos treinar as forças de segurança, os bombeiros e a articulação entre estas entidades”, explicou.

Segundo o responsável, uma das principais falhas identificadas esteve relacionada com as comunicações entre operacionais.

“As comunicações são sempre um grande desafio neste tipo de ocorrências, porque cada entidade trabalha em frequências diferentes e é necessário garantir que todos sabem, no momento certo, o que está a acontecer”, referiu.

Filipe Almeirante revelou ainda que estão já a ser preparados novos exercícios, ainda mais exigentes e complexos.

“O desafio ainda vai ser maior”, adiantou, sublinhando que o objetivo passa por “treinar as equipas para situações reais”.

Bombeiros e PSP testaram resposta a cenário complexo

Carlos Grazina, comandante dos Bombeiros Sapadores de Santarém, destacou a complexidade operacional de um incêndio em ambiente hospitalar, devido às características dos utentes e às especificidades técnicas do edifício.

“Os hospitais são sempre cenários complexos, pelas comorbidades dos utentes, pela quantidade de químicos existentes e pelos condicionamentos estruturais”, afirmou.

O comandante explicou que, neste tipo de ocorrências, a prioridade nem sempre passa pela evacuação total.

“Muitas vezes o confinamento ou a deslocação para uma zona mais segura é mais adequado do que evacuar”, referiu.

Do lado da PSP, o comissário João Silva considerou que a resposta policial correspondeu às expectativas, apesar de reconhecer limitações ao nível dos meios disponíveis.

“Tratou-se de um incidente tático policial que foi resolvido apenas pela parte da negociação”, explicou, acrescentando que, num cenário real mais grave, poderia ser necessário recorrer a unidades especiais externas ao comando distrital.

O responsável admitiu também que a presença policial permanente no hospital poderia agilizar a resposta inicial a situações deste género.

“A presença policial terá sempre impacto e auxiliará numa resposta imediata”, afirmou.

Confrontado com a possibilidade de situações semelhantes passarem da simulação à realidade, perante o aumento de episódios de agressões a profissionais de saúde, João Silva garantiu que as forças de segurança estão preparadas.

“Nós estamos aqui para responder às ocorrências que se concretizarem, dentro da nossa capacidade e da melhor forma possível”, concluiu.

O simulacro decorreu sem impacto significativo no funcionamento normal do hospital, tendo a ULS Lezíria garantido previamente a continuidade da prestação de cuidados aos utentes durante toda a operação.