Durante anos foi um projeto, uma ambição e, por vezes, quase uma batalha contra obstáculos financeiros, burocráticos e administrativos. Esta sexta-feira, 28 de agosto, deixou definitivamente de ser apenas um sonho.
As portas do Complexo Social e de Saúde da Quinta das Rosas abriram em Azambuja para acolher pessoas que esperam por respostas que, em muitos casos, simplesmente não existem na região.
Idosos que necessitam de acompanhamento permanente, jovens e adultos com deficiência sem uma resposta depois de terminarem o percurso escolar, famílias que procuram apoio domiciliário e doentes que permanecem nos hospitais porque não encontram uma vaga em cuidados continuados estão no centro de um investimento superior a nove milhões de euros concretizado pela CERCI Flor da Vida.
A inauguração oficial assinalou, por isso, muito mais do que a conclusão de uma obra de grandes dimensões. Representou a chegada ao concelho de Azambuja de um equipamento que reúne, num único espaço, respostas sociais e de saúde destinadas a diferentes fases e circunstâncias da vida.
“Hoje não estamos a inaugurar um edifício”,afirmou José Manuel Franco na abertura da sessão. A ideia acabaria por atravessar praticamente todas as intervenções da tarde. A Quinta das Rosas pretende ser, acima de tudo, um lugar para pessoas.
O presidente da CERCI Flor da Vida descreveu o novo complexo como “o reflexo vivo de um projeto feito por pessoas e para pessoas”, colocando os utentes como “a verdadeira razão de existir” de todo o investimento.
A dimensão da obra impressiona pelos números. Mas são precisamente esses números que ajudam a compreender aquilo que muda a partir de agora.
O complexo integra um Lar Residencial para pessoas com deficiência com 30 lugares, um Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão, também com capacidade para 30 pessoas, uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas com 30 vagas, uma Unidade de Cuidados Continuados Integrados de longa duração e manutenção com 41 camas e um Serviço de Apoio Domiciliário para pessoas com deficiência que poderá acompanhar até 50 utentes.
Parte das vagas da estrutura destinada a idosos poderá ainda funcionar como retaguarda hospitalar, contribuindo para encontrar soluções para pessoas que já não necessitam de permanecer internadas, mas que ainda não têm condições para regressar a casa.
É uma resposta que chega numa altura em que a pressão sobre os serviços sociais e de saúde continua elevada e em que as instituições reconhecem que a procura é muito superior à capacidade instalada.
Uma resposta para quem termina a escola e fica sem lugar
É na área da deficiência que uma das maiores carências se torna mais evidente.
A diretora executiva da CERCI Flor da Vida, Sílvia Vítor, tinha já alertado para uma realidade vivida por muitas famílias quando os jovens com deficiência atingem os 18 anos e terminam o seu percurso escolar.
“Os alunos, neste caso com 18 anos, que têm deficiência, acabam a escola e ficam sem resposta. Não há respostas na região em termos da área da deficiência”, afirmou.
É precisamente aí que o novo CACI e o Lar Residencial procuram fazer a diferença.
Apesar das novas vagas, a própria instituição reconhece que o problema está longe de ficar resolvido. Durante a inauguração foi revelado que existem mais de uma centena de pessoas em lista de espera apenas na área da deficiência.
A importância da Quinta das Rosas resulta também da possibilidade de reunir diferentes gerações e necessidades no mesmo local.
Uma pessoa com deficiência pode necessitar de uma resposta residencial enquanto os seus pais, já idosos, começam igualmente a precisar de apoio. Até agora, estas situações podiam significar separação e respostas em instituições diferentes, por vezes distantes entre si.
Com as diferentes valências concentradas no mesmo complexo, essa realidade poderá mudar.
“Podemos ter pais idosos a conviverem com os seus filhos que têm deficiência”, explicou Sílvia Vítor, dando como exemplo casos concretos de famílias que poderão finalmente permanecer próximas.
É uma das dimensões menos visíveis quando se fala dos nove milhões de euros investidos, mas talvez uma das mais importantes para quem vai utilizar o equipamento.
Mais de nove milhões de euros de investimento
A Quinta das Rosas representa um investimento global superior a nove milhões de euros.
Cerca de 4,47 milhões de euros tiveram origem no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), aos quais se juntaram aproximadamente 995 mil euros através do programa PARES 3.0, da Segurança Social.
A Câmara Municipal de Azambuja comparticipou igualmente o projeto com 350 mil euros.
O presidente da Câmara Municipal de Azambuja, Silvino Lúcio, colocou precisamente essa dimensão financeira ao serviço daquela que considera ser a verdadeira importância da obra. “Quando falamos da Quinta das Rosas, estamos a falar de ação social, saúde, inclusão, emprego e desenvolvimento”, afirmou o autarca durante a cerimónia.
Para Silvino Lúcio, os milhões investidos, os equipamentos instalados e o número de lugares disponíveis são apenas uma parte da história. “A verdadeira medida deste investimento será sempre outra: as vidas que conseguiremos melhorar”, sublinhou.
O autarca apontou como exemplos a tranquilidade de uma família que finalmente encontra uma solução, a dignidade proporcionada a uma pessoa idosa que recebe os cuidados de que necessita ou a autonomia que uma pessoa com deficiência poderá conquistar.
“Será o apoio que chega a uma casa e permite que alguém continue a viver no seu ambiente familiar. Será uma resposta de cuidados continuados disponível quando uma pessoa e a sua família mais precisam dela”, afirmou.
Quarenta e uma camas numa região pressionada pelos cuidados continuados
Outra das principais componentes do projeto é a Unidade de Cuidados Continuados Integrados.
As 41 camas de longa duração e manutenção representam um reforço significativo numa área em que a procura continua a ultrapassar largamente a oferta.
Durante a inauguração, a direção da CERCI Flor da Vida referiu a existência de mais de três mil pessoas à espera de uma vaga em cuidados continuados.
Segundo a instituição, a unidade da Quinta das Rosas deverá ser a única nova Unidade de Cuidados Continuados Integrados a abrir durante 2026 na região de Lisboa e Vale do Tejo.
A existência destas camas poderá igualmente contribuir para aliviar a pressão hospitalar, permitindo encaminhar pessoas que já não necessitam de permanecer num hospital de agudos, mas que continuam dependentes de cuidados especializados.
A secretária de Estado da Ação Social e da Inclusão, Clara Marques Mendes, que participou na inauguração, destacou precisamente a articulação entre a componente social e a saúde.
“Não nasce apenas um edifício, nasce um espaço onde se viva”, afirmou.
A governante considerou particularmente importante que o complexo consiga reunir respostas que, tradicionalmente, têm funcionado de forma separada.
“Cada vez mais a saúde e a Segurança Social têm que estar de mãos dadas”, defendeu Clara Marques Mendes, salientando que os problemas relacionados com internamentos prolongados ou ausência de respostas sociais devem ser enfrentados de forma conjunta.
A secretária de Estado reconheceu ainda que o país chegou ao atual cenário depois de anos sem se preparar suficientemente para o envelhecimento demográfico.
“Nós não preparámos o envelhecimento do nosso país, da população”, afirmou, defendendo que as políticas públicas terão agora de responder simultaneamente ao envelhecimento, à dependência, à deficiência e à permanência das pessoas nas suas próprias casas sempre que isso seja possível.
Um percurso feito de obstáculos
A inauguração teve também um peso particularmente simbólico para a CERCI Flor da Vida.
O caminho até à conclusão da obra esteve longe de ser simples.
A instituição chegou inicialmente a equacionar a recuperação do antigo hospital de Azambuja, numa parceria que acabou por não se concretizar.
Com prazos apertados para encontrar uma alternativa e garantir o acesso aos mecanismos de financiamento disponíveis, o projeto acabou por ser transferido para a Quinta das Rosas.
Pelo meio estiveram os efeitos da pandemia, dificuldades financeiras, processos administrativos, alterações ao projeto, financiamento bancário e a necessidade de a própria instituição assegurar uma parcela significativa do investimento.
“Nós fomos testados até ao limite”, reconheceu o presidente da CERCI Flor da Vida durante a cerimónia.
A direção apontou também dificuldades relacionadas com os reembolsos de financiamento e com o IVA suportado pela instituição, defendendo alterações aos mecanismos aplicados às instituições particulares de solidariedade social.
“Nós não estamos aqui para ganhar dinheiro. Nós estamos aqui para servir as pessoas”, afirmou o responsável.
Apesar das críticas, o discurso terminou com a dimensão pessoal de quem acompanhou o projeto durante vários anos.
“É um sonho de todos, um sonho que se tornou realidade”, afirmou, reconhecendo o esforço realizado para chegar ao dia da inauguração.
Cerca de 90 novos empregos
O impacto da Quinta das Rosas não ficará limitado às respostas sociais e de saúde.
Quando todas as valências estiverem a funcionar em pleno, o complexo deverá criar cerca de 90 postos de trabalho.
Entre 30% e 40% deverão corresponder a técnicos superiores e outros profissionais qualificados das áreas da saúde e da intervenção social.
A direção da CERCI Flor da Vida pretende que o crescimento permita também fixar profissionais no território e criar equipas estáveis, capazes de acompanhar os utentes de forma continuada.
Com a expansão das respostas, a instituição prevê chegar a um universo próximo dos 700 utentes apoiados nas diferentes valências e concelhos onde desenvolve atividade.
Fundada em 1980, a CERCI Flor da Vida construiu grande parte do seu percurso nas áreas da educação, reabilitação, capacitação e inclusão de pessoas com deficiência.
A instituição tem vindo, contudo, a alargar a sua intervenção ao envelhecimento, apoio domiciliário e saúde, transformação que encontra na Quinta das Rosas a sua expressão mais significativa.
Azambuja ganha uma resposta com dimensão regional
Apesar de estar localizado em Azambuja, o novo complexo terá uma abrangência muito superior ao concelho.
As respostas sociais deverão receber sobretudo utentes provenientes de Azambuja, Alenquer, Cartaxo e Vila Franca de Xira.
No caso dos cuidados continuados, a integração na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados permitirá receber pessoas provenientes de diferentes pontos do país.
Para Silvino Lúcio, é também por essa razão que a inauguração ultrapassa a dimensão municipal.
“Hoje abre-se uma nova página para a CERCI Flor da Vida, uma nova página para Azambuja e para toda a região”, afirmou o presidente da Câmara.
No final da cerimónia, ficaram os números de uma das maiores obras sociais realizadas recentemente no território: mais de nove milhões de euros investidos, dezenas de novas camas e lugares, cerca de 90 empregos previstos e diferentes respostas concentradas no mesmo espaço.
Mas ficou sobretudo aquilo que os discursos repetiram ao longo da tarde.
A Quinta das Rosas só começará verdadeiramente a cumprir a sua missão quando os quartos tiverem pessoas, as salas tiverem atividades, os profissionais estiverem a trabalhar e as famílias começarem a encontrar ali aquilo que procuraram durante meses ou anos.
