O Ribatejo vai caber, durante dois dias, dentro das Portas do Sol, em Santarém. Gastronomia, agricultura, artesanato, tauromaquia, música, produtores, raças autóctones e ofícios que correm o risco de desaparecer juntam-se, a 25 e 26 de setembro, em Santarém, para a segunda edição do Festival Raízes Vivas, que cresce em dimensão, muda-se das Caneiras para o coração da cidade e espera receber milhares de visitantes.
Idealizado pelo chef Rodrigo Castelo, responsável pelo restaurante Ó Balcão, distinguido com uma Estrela Michelin, o festival assume-se como uma “reserva viva da cultura ribatejana” e pretende mostrar que preservar as tradições não significa fechar o passado numa redoma. Pelo contrário, a organização quer transformar a identidade, o conhecimento e os produtos do território em instrumentos de desenvolvimento económico, turístico e social.
“Um povo sem memória é um povo sem futuro”, afirmou Rodrigo Castelo durante a apresentação da segunda edição, explicando que esta frase está na origem de um projeto que nasceu de uma conversa e da vontade de preservar uma cultura que considera inseparável “do produto e da identidade”.
Nos dias 25 e 26 de setembro, acrescentou o chef, “as Portas do Sol, em Santarém, transformam-se numa verdadeira reserva viva da cultura ribatejana”.
“Costumamos dizer que serão 7.500 quilómetros quadrados de Ribatejo vividos num jardim com vista para o Tejo. É talvez a forma mais simples de explicar o conceito”, resumiu Rodrigo Castelo.
Um festival que cresceu e chega ao centro da cidade
Depois de uma primeira edição realizada na aldeia avieira das Caneiras, o Raízes Vivas aumenta este ano a dimensão e instala-se nas Portas do Sol, levando a ruralidade, as tradições e os produtos do Ribatejo para um dos principais espaços turísticos do centro histórico de Santarém.
Promovido pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, em parceria com a Câmara Municipal de Santarém e com apoio do PR Alentejo 2030, o festival pretende aproximar residentes e visitantes de diferentes dimensões da identidade regional.
Rodrigo Castelo sublinha que a ideia não passa por criar uma representação parada no tempo.
“Não queremos fazê-lo como uma representação estática do passado. Queremos algo vivo”, afirmou, defendendo que uma “reserva viva” não significa “colocar a nossa cultura no museu”, mas antes “dar-lhe condições para continuar a existir, evoluir, gerar economia e chegar às novas gerações”.
Essa ligação entre património e futuro atravessa praticamente toda a programação. Gastronomia sustentável, agricultura regenerativa, artesanato, profissões tradicionais, biodiversidade, desperdício zero e alterações climáticas surgem lado a lado com concertos, tradições equestres e tauromáquicas.
Organização espera milhares de visitantes
A mudança para as Portas do Sol acompanha um crescimento significativo do próprio festival.
Durante a apresentação, Rodrigo Castelo revelou que a organização trabalha com uma previsão superior a quatro mil visitantes, embora admita que o número possa atingir os seis mil.
“Esperamos mais de 4.000 visitantes. Eu acredito que vai ser muito mais. Acredito que vamos chegar aos 6.000, mas não queria ser ambicioso”, afirmou.
A organização aponta ainda para a presença de mais de 50 produtores, artesãos e agentes económicos, cerca de 18 chefs, número que poderá aumentar, mais de 22 atuações de caráter cultural e diversas aulas e demonstrações práticas.
Só em matéria-prima, a organização estima utilizar aproximadamente 12.500 quilos ao longo do festival.
Para Rodrigo Castelo, porém, os números não são o principal objetivo.
“Aquilo que verdadeiramente nos interessa é aquilo que representa, mais pessoas no território, mais visibilidade, mais produtores, mais atividade económica, maior notoriedade para Santarém e para o Ribatejo”, afirmou.
Gastronomia transforma problemas do território em oportunidades
A gastronomia volta a ocupar um lugar central no Raízes Vivas. Os Jardins da Gastronomia terão capacidade para cerca de duas mil pessoas e vão receber chefs convidados e associações ribatejanas, que cozinharão privilegiando produtos da região, raças autóctones e ingredientes que permitem também discutir problemas ambientais.
“O que aqui nasce, quem trabalha a terra, quem preserva a raça ou a técnica é, em última análise, a própria economia do território”, salientou Rodrigo Castelo.
A filosofia passa por aproveitar a cozinha como instrumento para contar histórias e, simultaneamente, procurar respostas para desafios ambientais.
O javali, cuja expansão tem provocado prejuízos significativos em explorações agrícolas, será utilizado como ingrediente. O mesmo acontecerá com espécies invasoras, predadoras ou subaproveitadas dos ecossistemas fluviais, entre as quais o siluro, a perca e o lagostim.
“Poucas coisas contam tão bem a história de um território como aquilo que ele come”, defendeu o chef durante a apresentação.
A gastronomia estará igualmente ligada ao conceito de desperdício zero, à biodiversidade e à valorização dos produtores locais.
Para complementar a restauração, os jardins terão zonas de piquenique com capacidade superior a 400 pessoas e três áreas de lounge.
Artesãos e profissões em risco ganham uma rua própria
A preservação dos saberes tradicionais será outra das apostas da edição deste ano.
Na Praça de Produtores, Artesãos & Agricultores estarão representados queijeiros, apicultores, oleiros, cesteiros, conserveiros, produtores de azeite, doceiros e outros agentes ligados ao território.
Alguns destes profissionais vão também ensinar aquilo que sabem fazer, através de aulas e demonstrações abertas aos visitantes.
A Rua dos Ofícios será dedicada particularmente às profissões ligadas ao universo taurino e equestre. Fabricantes de arreios, alfaiates de trajes de campino, cavaleiro e toureiro, ferradores e emboladores estarão entre os profissionais presentes.
O objetivo é dar visibilidade a conhecimentos que durante décadas ou séculos passaram entre gerações, mas que atualmente enfrentam dificuldades de renovação.
Rodrigo Castelo considera que esta dimensão é essencial para compreender o próprio conceito do festival.
“A gastronomia é uma parte essencial da memória, mas não existe sem a terra, sem os produtores, sem os artesãos e sem as pessoas que continuam a preservar os seus saberes”, defende.
Nas hortas também se aprende o futuro da agricultura
Se uma parte do programa olha para técnicas ancestrais, outra está virada para o futuro.
As Hortas Regenerativas vão funcionar como espaço pedagógico e permitir aos visitantes experimentar práticas relacionadas com agricultura regenerativa e biológica, agroecologia, compostagem, gestão eficiente da água e conservação de sementes tradicionais.
O espaço pretende funcionar como uma verdadeira sala de aula ao ar livre, particularmente direcionada para famílias e jovens.
Já o Palco Futuro receberá debates sobre agricultura, inovação, sustentabilidade e alterações climáticas, procurando colocar produtores, investigadores e outros profissionais a discutir os caminhos do setor agrícola.
As Hortas Regenerativas e o Palco Futuro contam com o apoio da Escola Superior Agrária de Santarém e da Vivid Farms.
Turismo quer levar Raízes Vivas a outros concelhos
Uma das novidades reveladas durante a apresentação é que a marca Raízes Vivas poderá não ficar confinada a Santarém.
José Manuel Santos, presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, afirmou que está a ser trabalhada a possibilidade de realizar uma iniciativa com a marca noutro concelho da região ainda antes do final do ano.
“Este Raízes Vivas não vai ficar só por Santarém”, garantiu.
A intenção passa por iniciar essa expansão através de um formato de menor dimensão e particularmente ligado à promoção gastronómica.
“Raízes é um evento capilar, é um evento que vai ter que ganhar raízes e procurar também implantar-se noutros concelhos da Lezíria do Tejo e do Ribatejo, obviamente tendo sempre como centro fundamental e fundador a cidade de Santarém”, afirmou José Manuel Santos.
O responsável enquadrou o festival numa estratégia mais ampla para dar maior notoriedade turística ao Ribatejo, quer no mercado nacional, quer progressivamente no mercado internacional.
Segundo José Manuel Santos, os últimos indicadores disponíveis mostram crescimento da procura turística em Santarém, considerando que eventos desta dimensão podem gerar reflexos diretos “no retalho, na restauração, no comércio, no artesanato e no alojamento da cidade e da região”.
O presidente da Entidade Regional de Turismo foi ainda mais longe ao definir o Ribatejo como aquele que acredita ser “o próximo grande destino turístico de Portugal”.
João Teixeira Leite destaca impacto dos grandes eventos
Também o presidente da Câmara Municipal de Santarém, João Teixeira Leite, colocou o festival dentro da estratégia municipal de atração de visitantes e dinamização económica da cidade.
O autarca defendeu que a realização de grandes eventos é uma opção estratégica para aumentar a procura turística e o consumo na economia local.
“Somos, com orgulho, a Capital Nacional da Gastronomia”, afirmou, recordando que Santarém recebe igualmente aquele que classificou como o festival gastronómico mais antigo do país, cuja 45.ª edição começa a 22 de outubro.
Para João Teixeira Leite, iniciativas ligadas à gastronomia ao longo de todo o ano são fundamentais para consolidar o posicionamento turístico da cidade.
“Estamos a executar com provas dadas, com as nossas ruas cheias, com os nossos eventos cada vez a atrair mais pessoas”, declarou.
Na apresentação, o presidente da Câmara destacou igualmente a evolução do alojamento turístico, revelando que Santarém deverá ter três novos hotéis em funcionamento nos próximos anos e que, apenas nos últimos quatro meses, entraram quatro novos pedidos de licenciamento para unidades hoteleiras no concelho.
“Estamos a crescer e isso é aquilo que quem está à frente de uma entidade pública deseja que aconteça. Crescer com qualidade, crescer com identidade”, afirmou.
Música, romaria e tradição taurina
A programação cultural terá como principal centro o Palco Raízes Vivas, com capacidade superior a 1.400 pessoas, onde vão decorrer concertos e atuações ligadas a diferentes expressões da música portuguesa, incluindo o cante ribatejano e o fado.
No sábado, a vertente religiosa e equestre ganha também protagonismo. Pelas 9h00 será celebrada uma missa na Igreja do Santíssimo Milagre, seguindo-se uma procissão e romaria a cavalo com a imagem de Nossa Senhora da Piedade até às Portas do Sol.
A tauromaquia terá uma área própria numa praça amovível com cerca de 1.800 lugares, instalada na zona de São Bento, onde decorrerão demonstrações, aulas práticas, apresentações equestres e a II Grande Corrida de Toiros de Beneficência Raízes Vivas.
João Teixeira Leite assumiu durante a apresentação a aposta nessa componente.
“Em Santarém, Capital do Ribatejo, celebramos com entusiasmo a Festa Brava, porque faz parte das nossas raízes, das nossas tradições, da nossa identidade e da nossa cultura”, afirmou.
Festival quer deixar marca para além de dois dias
A componente solidária volta igualmente a fazer parte do Raízes Vivas.
O valor das vendas dos pratos será entregue às associações Raízes Vivas, Académica de Santarém e Sociedade de Recreio e Educativa da Romeira. Já as receitas provenientes da corrida de toiros revertem para o Santuário do Santíssimo Milagre.
Para Rodrigo Castelo, o objetivo é precisamente garantir que o impacto do festival não termina quando fecharem as portas do recinto.
“O Raízes Vivas deixa de ser apenas algo que acontece durante dois dias. Cria impacto antes, durante e depois”, sublinhou durante a apresentação.
É essa ambição que resume a passagem das Caneiras para as Portas do Sol. O festival cresce, aproxima-se do centro urbano e procura mostrar que a identidade ribatejana pode continuar profundamente ligada às suas raízes sem deixar de procurar novas formas de gerar economia, conhecimento e turismo.
“Queremos mostrar que a cultura ribatejana pode ser simultaneamente património e futuro, tradição e inovação, identidade e economia, memória e sustentabilidade”, afirmou Rodrigo Castelo.
Durante dois dias, concluiu, “as Portas do Sol serão uma montra do Ribatejo”, mas a ambição é que aquilo que ali acontecer permaneça “muito para além destes dois dias”.
