A sobrepopulação de javalis está a transformar-se num problema cada vez mais grave para agricultores, caçadores e entidades do setor cinegético, com prejuízos que se fazem sentir sobretudo nas culturas de milho, mas também com impacto na circulação rodoviária, na sanidade animal e no equilíbrio ecológico.

Em declarações ao NS, durante a Expocaça, que decorreu no CNEMA, Alfredo Lobato, da Associação de Caçadores do Vale de Santarém, afirmou que os estragos provocados pelos javalis na margem direita do Tejo, em plena Lezíria, são particularmente visíveis nas explorações agrícolas, sobretudo nos milhos. “É um problema gravíssimo”, sublinhou, defendendo que a espécie está a atingir populações “incontroláveis”.

Segundo o responsável, a solução passa por medidas de controlo no terreno, através de montarias e de esperas, consideradas por si a única via eficaz para reduzir a pressão desta espécie. Alfredo Lobato criticou ainda algumas propostas de esterilização, considerando-as inviáveis na prática, e assinalou que a possibilidade de caça durante todo o ano tem permitido alguns resultados, embora insuficientes para travar o avanço do problema.

Também Ana Perdigão, da FENCAÇA, alertou para a dimensão do fenómeno. A responsável explicou que o javali é atualmente um predador de topo e que, além dos prejuízos agrícolas, tem vindo a aumentar o número de acidentes rodoviários e a funcionar como vetor de transmissão de doenças ao gado, como a tuberculose e a brucelose.

Ana Perdigão alertou ainda para o risco da entrada da peste suína africana em Portugal, sublinhando que essa eventualidade teria consequências muito graves para o setor da suinicultura, sobretudo nas explorações extensivas. Ao mesmo tempo, referiu que os javalis estão a causar danos na biodiversidade, ao destruírem ninhos no solo e ao comprometerem a reprodução de várias espécies de caça menor e de outras aves e animais que dependem desse habitat.

A representante da FENCAÇA defendeu, por isso, maior abertura por parte das entidades reguladoras e menos burocracia na autorização de ações concentradas de controlo populacional. Recordou que, mesmo quando existem períodos excecionais autorizados, os processos administrativos podem dificultar a resposta rápida no terreno, inviabilizando operações organizadas com pouca antecedência.

A pressão crescente desta espécie tem levado caçadores e representantes do setor a insistirem na necessidade de medidas mais eficazes e coordenadas. No terreno, a mensagem é comum: os javalis deixaram de ser apenas uma presença habitual da fauna selvagem e passaram a ser, para muitos agricultores e gestores cinegéticos, uma ameaça concreta à produção, à segurança e ao equilíbrio ambiental.