O aumento da população migrante, as barreiras linguísticas no acesso aos cuidados de saúde e a crescente desinformação difundida através das redes sociais estão entre os desafios que a Unidade Local de Saúde da Lezíria (ULS Lezíria) quer enfrentar através da nova estratégia de literacia em saúde.

Em declarações ao NS, à margem do 1.º Encontro de Literacia em Saúde da ULS Lezíria, realizado em Santarém, o presidente do Conselho de Administração, Pedro Marques, assumiu que os novos fluxos migratórios obrigam os serviços de saúde a adaptar a forma como comunicam com uma população cada vez mais diversificada.

“São desafios, mas também são oportunidades”, afirmou Pedro Marques, recordando que Portugal já enfrentou outros movimentos migratórios e que muitos dos cidadãos que chegaram ao país acabaram por se integrar e tornar parte ativa da sociedade. O responsável acredita que um processo semelhante acontecerá com as atuais comunidades migrantes, mas reconhece que as instituições também têm de fazer a sua parte.

“Admitimos que temos de ajustar a forma como comunicamos”, afirmou ao NS, apontando como exemplo outras instituições de saúde que já disponibilizam informação em vários idiomas. Para Pedro Marques, a resposta não passa apenas pela tradução de conteúdos. “Não é só a comunicação que se ajusta. É a componente relacional e emocional”, salientou.

A questão ganha dimensão acrescida numa ULS que tem registado um crescimento do número de utentes e onde as comunidades de imigrantes são já encaradas como parceiros necessários para melhorar a prestação de cuidados. Pedro Marques defende, por isso, o envolvimento destas comunidades, juntamente com municípios, freguesias, instituições particulares de solidariedade social, paróquias e academia.

“Nós precisamos de todos para conseguir entregar valor”, afirmou, considerando que esse valor não deve ser medido apenas numa perspetiva económica, mas também através da qualidade e dos anos de vida acrescentados às populações.

Informação de saúde em diferentes idiomas

A barreira linguística assume particular importância quando está em causa compreender um diagnóstico, seguir corretamente uma terapêutica ou perceber a que serviço recorrer perante um problema de saúde.

Pedro Marques recordou a experiência portuguesa com anteriores movimentos migratórios, nomeadamente a chegada de cidadãos dos países do Leste europeu, que enfrentaram igualmente diferenças linguísticas e culturais.

Segundo o presidente da ULS Lezíria, muitos desses cidadãos “adaptaram-se e integraram-se” e são hoje parte da sociedade portuguesa, podendo inclusivamente funcionar como “embaixadores” nos processos de comunicação e integração.

A ULS Lezíria pretende agora aplicar essa aprendizagem aos novos fluxos migratórios e admite seguir exemplos de outras unidades de saúde que já comunicam em vários idiomas.

A estratégia enquadra-se numa aposta mais abrangente na literacia em saúde, que Pedro Marques considera uma “prioridade estratégica” da instituição. O objetivo passa por fornecer informação credível e compreensível a diferentes públicos, permitindo que os cidadãos conheçam melhor o seu estado de saúde e saibam também navegar pelos vários níveis de cuidados do SNS.

“Não se trata de um sprint, isto é uma maratona. É uma corrida de longo curso que tem de começar”, afirmou Pedro Marques ao NS.

“Temos de saber jogar no mesmo campo” da desinformação

A outra frente identificada pelo presidente da ULS Lezíria é a desinformação, numa altura em que conteúdos sobre saúde sem sustentação científica encontram nas redes sociais, blogues, podcasts e outras plataformas digitais capacidade para chegar rapidamente a milhares de pessoas.

Questionado pelo NS sobre este fenómeno, que tem estado também em discussão em Santarém nos últimos dias, Pedro Marques defendeu que as instituições de saúde não podem abandonar esse espaço aos responsáveis pela propagação de informação sem fundamento científico.

“Os trendsetters, os influencers digitais utilizam os canais de comunicação digital, os podcasts, as redes sociais, os blogues, o espaço mediático em geral para desinformar. Temos de saber jogar no mesmo campo e trazer a evidência para cima e não apenas o palpite”, afirmou.

O presidente da ULS Lezíria endurece o discurso quando aborda a transformação de opiniões pessoais em alegadas verdades científicas.

“Palpite é das piores coisas que pode haver. É quando as convicções se enraízam de uma forma que passam a querer ser verdade suprema e absoluta”, declarou.

A resposta, sustenta, deve ser dada através de conhecimento científico verificável. “Têm de ser combatidas com evidência, com novos dados, com resultados, com metas que foram traçadas, objetivos que foram atingidos, resultados que podemos apresentar. É por aí que temos de fazer o caminho”, afirmou Pedro Marques.

O problema da desinformação em saúde ultrapassa o contexto regional. A utilização das plataformas digitais para difundir alegadas curas, tratamentos sem comprovação e informação apresentada por falsos especialistas tem levado autoridades de saúde de vários países a reforçar mecanismos de resposta. Esta semana, por exemplo, autoridades brasileiras notificaram o YouTube na sequência da identificação de dezenas de perfis que recorriam a personagens geradas por inteligência artificial para simular médicos e divulgar informações falsas sobre saúde.

Confiança nas vacinas e nos avanços científicos

Para Pedro Marques, o combate à desinformação está diretamente relacionado com a confiança dos cidadãos nas instituições, nas vacinas, nos antibióticos e nos avanços científicos.

A literacia em saúde deverá permitir que as pessoas tenham acesso a informação “credível, robusta” e consigam processá-la e compreendê-la, quer para gerir uma doença já diagnosticada, quer para alterar comportamentos e prevenir o aparecimento de problemas de saúde.

O responsável defende uma comunicação nos dois sentidos, na qual os serviços transmitam informação, mas também tenham capacidade para conhecer a experiência e os resultados percecionados pelos próprios doentes.

O objetivo é que “as pessoas acreditem, tenham confiança nas instituições e possam ser parte ativa na gestão do seu processo, do seu ciclo de vida e da sua saúde”, explicou ao NS.

Mais literacia pode reduzir pressão sobre os serviços

A estratégia poderá ainda ter consequências na utilização das urgências. Pedro Marques acredita que cidadãos mais esclarecidos sobre a evolução de uma doença crónica ou perante um episódio agudo terão maior capacidade para perceber se necessitam de recorrer imediatamente a uma urgência, se existe uma resposta de proximidade ou se podem aguardar e vigiar os sintomas.

“Nós acreditamos que o reforço das competências em saúde e o nível de informação, que seja entendível, pode diminuir também o afluxo e o consumo de recursos de uma forma desnecessária”, afirmou.

Para o presidente da ULS Lezíria, esta dimensão transforma a literacia numa ferramenta não apenas de prevenção e capacitação dos cidadãos, mas também de sustentabilidade das próprias instituições.

“A literacia em saúde é uma importante forma de ajuda da sustentabilidade financeira e da sustentabilidade operacional das instituições de saúde”, concluiu.