Informar não basta. É preciso garantir que as pessoas compreendem aquilo que lhes é transmitido, sabem utilizar essa informação e conseguem tomar decisões mais conscientes sobre a própria saúde. Foi esta uma das principais mensagens do 1.º Encontro de Literacia em Saúde da Unidade Local de Saúde da Lezíria (ULS Lezíria), realizado esta terça-feira, 8 de setembro, na Escola Superior de Saúde de Santarém, da Universidade Politécnica de Santarém.
A iniciativa reuniu profissionais de saúde, representantes da academia, autarquias e instituições sociais para discutir formas de tornar o sistema de saúde mais acessível, simples e próximo dos cidadãos. O encontro serviu também para dar a conhecer o trabalho que a ULS Lezíria está a desenvolver nesta área, incluindo uma proposta de Plano de Literacia em Saúde, já remetida à Direção-Geral da Saúde para apreciação.
O presidente do Conselho de Administração da ULS Lezíria, Pedro Marques, deixou claro que a aposta pretende ser estrutural e prolongada no tempo. “A literacia em saúde não é um tema fashion para ser usado de uma forma trendy nos dias festivos. Não é um sprint, é uma maratona”, afirmou, defendendo que o trabalho exige investimento continuado em recursos, políticas e iniciativas.
Segundo Pedro Marques, uma população mais esclarecida poderá utilizar de forma mais adequada as diferentes respostas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), com reflexos nos resultados clínicos e na própria sustentabilidade do sistema. “Cidadãos mais esclarecidos, mais informados, utilizam melhor o sistema de saúde que existe”, salientou, resumindo o objetivo numa expressão: “O doente certo, no local certo, na hora justa”.
Literacia pode ajudar a reduzir urgências evitáveis
Uma das consequências esperadas da aposta na literacia em saúde é a redução da utilização inadequada dos serviços de urgência. Para Pedro Marques, cidadãos que conhecem melhor o funcionamento do SNS, reconhecem sinais de alerta e sabem onde procurar ajuda têm maior capacidade para recorrer à resposta adequada a cada situação, evitando também complicações associadas a doenças crónicas.
“Podemos dizer que contribui para a sustentabilidade financeira do SNS”, afirmou o presidente da ULS Lezíria, que considera igualmente fundamental começar este trabalho nas idades mais jovens. “Temos necessidade de falar com as crianças, com os jovens, de forma aberta sobre temas de saúde”, referiu, apontando as escolas como um dos espaços prioritários para desenvolver competências que possam acompanhar os cidadãos ao longo da vida.
O responsável destacou ainda a evolução demográfica registada no território. A população inscrita na ULS Lezíria passou, em poucos anos, de cerca de 199 mil ou 200 mil utentes para mais de 206 mil, crescimento que está também associado à chegada de cidadãos provenientes de diferentes países e contextos culturais.
Esta nova realidade coloca desafios adicionais aos serviços, nomeadamente ao nível da língua e da comunicação. “Tem a ver com influxo de países de outras línguas, etnias, culturas e valores”, afirmou Pedro Marques, adiantando que um dos objetivos passa por disponibilizar progressivamente informação em vários idiomas. “Temos o desafio de começarmos progressivamente a ter os nossos folhetos em vários idiomas, não apenas português e inglês.”
A estratégia, contudo, não deverá ficar limitada à produção de materiais informativos. A ambição da ULS Lezíria passa pela criação de uma organização promotora de literacia em saúde, onde a comunicação, os percursos dos utentes, os processos assistenciais e a participação dos cidadãos sejam pensados de forma a facilitar a compreensão e a tomada de decisões.
“Fornecer informação não significa necessariamente comunicar”
A diretora clínica para os Cuidados de Saúde Primários da ULS Lezíria, Ana Calado, levou para o encontro uma questão que acompanha diariamente os profissionais. “Quantas vezes terminámos uma consulta com a convicção de que explicámos tudo, mas sem a certeza de que o utente compreendeu a mensagem?”, questionou.
Para a médica, uma explicação pode estar tecnicamente correta e, ainda assim, não cumprir o objetivo. “Fornecer informação não significa necessariamente comunicar. Comunicar exige escutar, conhecer a pessoa que está à nossa frente, compreender a sua realidade, adaptar a linguagem e confirmar o que efetivamente foi compreendido”, afirmou.
Ana Calado lembrou que qualquer pessoa pode sentir dificuldades em interpretar informação relacionada com a saúde, sobretudo quando está doente, fragilizada ou preocupada com alguém próximo. Na Lezíria, esta questão assume particular relevância devido ao envelhecimento da população, à elevada prevalência de doenças crónicas, aos diferentes níveis de escolaridade e à crescente diversidade cultural.
A responsável considera que existe já trabalho desenvolvido nesta área, mas defende que os vários projetos devem deixar de funcionar isoladamente. “Precisamos de os conhecer, valorizar, articular e avaliar, integrando-os numa estratégia institucional integrada e sustentável”, sustentou. “A verdadeira medida da nossa comunicação não está naquilo que dizemos. Está naquilo que a pessoa consegue compreender e utilizar.”
Desinformação é um dos novos desafios
A crescente circulação de informação falsa ou sem fundamento científico, sobretudo através das redes sociais e dos meios digitais, foi outro dos temas que marcou o encontro. Pedro Marques criticou a exposição mediática concedida a discursos contrários à evidência científica, nomeadamente em matérias relacionadas com vacinas e medicamentos.
“Temos pessoas que têm espaço mediático, são contra os antibióticos, contra os medicamentos, contra as vacinas, que desinformam a população”, afirmou. Para o presidente da ULS Lezíria, as instituições têm de responder com informação rigorosa e baseada na evidência científica, mas também apresentada de forma clara e acessível, contribuindo para reforçar a confiança dos cidadãos nos serviços de saúde.
A enfermeira diretora da ULS Lezíria, Fátima Lopes, partilhou a mesma preocupação. “Estamos constantemente a ser bombardeados com informação. E muita dela não é informação, é desinformação”, alertou, chamando também a atenção para as dificuldades enfrentadas por idosos, pessoas socialmente vulneráveis e cidadãos que não dominam a língua portuguesa.
A ansiedade vivida num serviço de urgência pode igualmente diminuir a capacidade de assimilar aquilo que é transmitido pelos profissionais. Para Fátima Lopes, melhorar a comunicação pode ter efeitos muito concretos na relação das pessoas com os cuidados. “Investir na literacia em saúde é investir na autonomia do doente, do utente”, afirmou. Uma população mais esclarecida poderá, acrescentou, aderir melhor aos tratamentos, evitar erros relacionados com a medicação e utilizar de forma mais eficiente os serviços. “Reduzimos as urgências desnecessárias, evitamos erros de medicação e aumentamos a eficiência dos cuidados.”
Responsabilidade não pode ficar apenas do lado dos cidadãos
Ana Rita Pedro, investigadora da Escola Nacional de Saúde Pública e coordenadora da Rede Académica de Literacia em Saúde, defendeu que é necessário mudar a forma como esta questão foi tradicionalmente encarada. Durante muitos anos, explicou, as dificuldades foram atribuídas sobretudo aos cidadãos que não compreendiam a informação, não aderiam aos tratamentos ou não conseguiam navegar pelo sistema de saúde.
“Hoje sabemos que a literacia em saúde é, antes de mais, uma relação”, afirmou. Para a investigadora, essa relação depende não apenas das competências de cada pessoa, mas também da complexidade que as próprias instituições colocam no seu caminho. “Uma parte substancial da responsabilidade está do nosso lado, do lado de quem estuda, organiza e presta os cuidados de saúde.”
A linguagem excessivamente técnica, formulários difíceis de interpretar, circuitos pouco claros e instruções de alta complexas foram alguns dos exemplos apontados. “Nada disso é uma fatalidade. Tudo é modificável. Modificá-lo está, em larga medida, nas nossas mãos”, frisou Ana Rita Pedro, destacando que o modelo de Unidade Local de Saúde cria condições particularmente favoráveis para esta mudança ao integrar hospital, cuidados de saúde primários e saúde pública. “As pessoas não vivem a sua saúde em caixinhas separadas”, observou.
Criada em 2013, a Rede Académica de Literacia em Saúde integra atualmente 20 instituições de ensino superior, entre as quais a Escola Superior de Saúde de Santarém, que faz parte da estrutura desde 2019. Ana Rita Pedro considera que os projetos apresentados no encontro demonstram que já existe trabalho concreto no terreno. “Não estamos aqui para discutir se vale a pena investir nesta área. Estamos a discutir como fazê-lo melhor e como levar mais longe.”
Município quer literacia como prioridade local
A vereadora da Saúde da Câmara Municipal de Santarém, Teresa Ferreira, defendeu que a promoção da saúde não pode ficar circunscrita aos hospitais e centros de saúde. “A saúde faz-se nas nossas comunidades, faz-se nas nossas escolas, faz-se nas nossas famílias, nas nossas instituições e também na nossa autarquia”, afirmou.
Em representação do presidente da Câmara Municipal de Santarém, João Teixeira Leite, a autarca destacou a proximidade do poder local às populações e, em particular, aos grupos mais vulneráveis. “O poder local tem um papel importante. Estamos próximos das pessoas, conhecemos os territórios, conhecemos muitas das suas dificuldades”, salientou.
Teresa Ferreira defendeu, por isso, uma articulação cada vez mais próxima entre os municípios e o SNS, não para substituir competências, mas para juntar esforços e construir respostas ajustadas às necessidades locais. “A literacia deve ser assumida como uma prioridade das políticas públicas locais, não uma ação pontual”, afirmou, apontando como áreas de intervenção as escolas, a população sénior, a saúde mental, a prevenção da doença e a literacia digital.
“Temos um objetivo comum, uma população mais informada, mais participativa e, sobretudo, mais saudável”, acrescentou.
Escola de Saúde destaca importância da parceria
A diretora da Escola Superior de Saúde de Santarém, Hélia Dias, reforçou também a necessidade de distinguir a mera transmissão de informação da verdadeira literacia. “Literacia em saúde não é dar a informação”, afirmou, explicando que é necessário garantir que as pessoas conseguem aceder aos conteúdos, compreendê-los, transformá-los em conhecimento e aplicá-los na vida quotidiana.
Hélia Dias destacou ainda a parceria entre a Escola Superior de Saúde de Santarém e a ULS Lezíria, considerando que este tipo de iniciativas permite aproximar a academia da comunidade. “Aproximamo-nos da comunidade, estabelecemos outras ligações e há aqui um ganho para todos os envolvidos”, salientou.
O encontro decorreu também num momento simbólico para a instituição, agora integrada na Universidade Politécnica de Santarém. Perante profissionais de diferentes áreas e representantes de várias instituições do território, ficou traçado um desafio que ultrapassa a realização do próprio encontro: transformar projetos e iniciativas já existentes numa estratégia continuada de literacia em saúde.
Para a ULS Lezíria, essa estratégia deverá envolver profissionais de saúde, escolas, autarquias, instituições sociais, associações e comunidades, procurando não apenas melhorar a forma como os cidadãos utilizam o SNS, mas também aumentar a sua capacidade para tomar decisões informadas sobre a própria saúde.
Como sintetizou Pedro Marques, o objetivo não passa apenas por aumentar a esperança de vida. “Nós precisamos que as pessoas vivam mais. Mas que vivam melhor, vivam bem, vivam com qualidade.”
