Vários investigadores internacionais vão reunir-se entre quinta-feira e sábado em Lisboa e Vila Franca de Xira, para debater a importância da literatura como ferramenta de compreensão social e histórica, aproximando a escrita literária da investigação em ciências sociais.
Subordinada ao tema “Literatura e Sociedade”, esta conferência internacional decorrerá na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa, e no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, de acordo com a organização.
O encontro propõe-se discutir a relação entre literatura e ciências sociais, como a História, Sociologia, Etnografia, Estudos Culturais, Antropologia ou Ciência Política, partindo da ideia de que as obras literárias também podem ajudar a compreender a realidade social.
A base teórica vem de autores que defendem a eliminação da fronteira entre literatura e História, como o historiador e escritor francês Ivan Jablonka, para quem “as ciências sociais podem ser literárias” sem perder rigor científico.
Na prática, os investigadores – oriundos de universidades de Espanha, Brasil ou França, além de Portugal – vão analisar obras literárias específicas, para perceber como estas ajudam a interpretar fenómenos sociais, históricos e políticos, como os conflitos, as desigualdades, as resistências, as instituições, as experiências íntimas ou os movimentos coletivos.
É o caso do romance “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, que será analisado à luz do tema “1995: A experiência do contágio, contenção e suspensão da vida”, numa mesa que marca a abertura da conferência.
Outros exemplos literários que estarão em discussão no primeiro dia são “Cravo”, de Maria Velho da Costa, e “1976: A literatura como resistência antifascista e agência revolucionária”; “O Diabo foi meu Padeiro”, de Mário Lúcio Sousa, e “2019: Um regresso ao Tarrafal”; “Monte dos Vendavais”, de Emily Brontë, e “1847: O ‘outro’ transgressor e a libertação do horrível”; “Helena”, de Machado de Assis, com “1876: Pensar e relação entre história e literatura a partir de uma personagem secundária de Machado de Assis”; “Limpa”, de Alia Trabucco Zéran, e “2022: Um olhar sobre o trabalho doméstico e as suas práticas de resistência quotidiana”; ou “A história de uma serva”, de Margaret Atwood, com o tema “1985: Serena Joy – usar a voz para perder a voz”.
No dia seguinte, serão analisados e debatidos “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, e “1813: Os hipertextos contemporâneos da Inglaterra rural da Regência”; “Pela água”, de Sylvia Plath, a par com o tema “1971: Poemas, fragmentos e o (in)dizível adoecimento psíquico”; “O Fogo e as Cinzas”, de Manuel da Fonseca, com “1952: Habitando o tempo em paisagens de progresso. O caso de Santa Clara-a-Velha”; “Sinais de Fogo”, de Jorge de Sena, e “1979: Juventude, ascenso do fascismo e guerra de Espanha”; “O deus das pequenas coisas”, de Arundhati Roy, e “1997: A biblioteca (anti)colonial”.
Para sábado, estão reservados “Tanta gente, Mariana”, de Maria Judite de Carvalho, e “1959: O ar do tempo”; ou “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, com “1938: O sonho de Baleia: considerações sobre a fome dos bichos”.
Ao longo dos três dias, serão ainda discutidas obras de autores como Aquilino Ribeiro, Carlos Oliveira, Alves Redol, Fernando Namora, Jorge Amado, Eduarda Dionísio, Shahd Wadi, Eduardo Heras León, Eric Vuillard, P.L. Travers ou Gueorgui Gospodínov, entre muitos outros.
Segundo a apresentação do evento, disponível na página de Internet da BNP, as ciências sociais contribuem com “factos e conceitos”, enquanto a literatura trabalha esses elementos “pela escrita”, permitindo ultrapassar fronteiras entre o íntimo e o coletivo, bem como entre acontecimentos, instituições e movimentos sociais.
A conferência recupera também a reflexão do antropólogo francês Maurice Godelier, segundo a qual a ficção “contém mais do que o imaginado”, ao articular componentes de mundos reais e irreais, com personagens e acontecimentos que conferem legibilidade às sociedades.
A BNP cita ainda o filósofo Jacques Rancière, para quem a ficção constitui “uma estrutura de racionalidade” que permite organizar acontecimentos e construir sentido, servindo de ponto de partida para os debates.
As várias sessões, moderadas por investigadores de instituições nacionais e estrangeiras, decorrem nos dias 14 e 15 na Biblioteca Nacional de Portugal, a partir das 09:30, e no dia 16 no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.
O programa termina nesse dia, com um passeio pela Vila Franca dos neo-realistas, conduzido por António Mota Redol, a partir das 15:00.
A conferência é coorganizada por várias unidades de investigação, nomeadamente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da NOVA, o Museu do Neo-Realismo e outras entidades académicas e culturais.
